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NOESIS:
Ainda tem ideia do seu tempo de escola?
ARQUIMEDES SANTOS: Sim. tenho recordações. Mas, se me perguntar
se houve assim grandes professores que me tivessem marcado, a questão
é mais delicada, sobretudo, tendo cm conta a nossa visão de hoje em
relação ao que foi o ensino nessa época.
Nessa época, o ensino
era mais tradicional...
Exactamente. Passei por várias escolas. Tive essa felicidade, por um
lado, e infelicidade, por outro. Mudei frequentemente de escolas porque
o meu pai era funcionário público e, como tal, embora tivesse nascido
aqui, saí daqui com 7 anos.
E acabou o curso de
Medicina em Coimbra?
Sim. Tirei também as pedagógicas. Exerci clínica. Depois, fui para
Lisboa para tirar outra especialidade. Fui então para Paris com a bolsa
do governo francês. Estive lá dois anos e regressei em 1964, já com a
especialização de psiquiatria infantil que eu queria tirar, e que não
existia em Portugal. Depois, a convite de um amigo que estava a iniciar
o Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Gulbenkian, o Dr.
Breda Simões, fui para esta Fundação. Aí começa outra fase da minha
vida.
E isso em que época
foi?
Em 1965.
Nessa altura, não
estava lá o Dr. Rui Grácio?
Estava, e eu era muito amigo do Dr. Rui Grácio desde os 20 anos.
Mas, disse que a sua
vida teve outra...
Porque tive dificuldades várias, não vale a pena estar a falar nisso.
Mas, de que tipo?
Políticas.
Eu, como médico, não podia sequer entrar nos hospitais. Mesmo não
ganhando... Fazia clínica aqui, mas, como deve calcular, não era
aquilo que eu queria. E entrar para o Centro de Investigação
Pedagógica aconteceu a partir da especialização que tinha feito: a
neuropedagogia infantil ou a pedopsiquiatria. Houve a possibilidade de
ir dar apoio a crianças com dificuldades. Mas, aconteceu que no Centro
de Investigação Pedagógica se criou um curso de formação das
Ciências da Educação para monitores dos Serviços da Fundação,
relacionados com a música e com os museus. Isto é, nos Museus e na
Música havia cursos para professores artistas. A dada altura, acharam
que devia haver também um complemento pedagógico para esses
professores. Então, no Centro, criado há pouco tempo, formou-se um
curso de ciências pedagógicas de que era director precisamente o Prof.
Delfim Santos, um curso como o que havia na Faculdade de Letras, que eu
também tirei. Esse curso da Gulbenkian tinha como subdirectores o Dr. Breda Simões, que era meu amigo também, e o Dr. Rui Grácio.
Havia dois Departamentos. Um de didácticas e outro de psicologia e de
psicopedagogia. E foi para esse que fui convidado. Ora, acontece que
nesse curso de ciências pedagógicas havia professores, entre os quais
o Dr. Delfim Santos, o Dr. Rui Grácio, o Dr. Breda Simões e as Dr.as.
Natália Pais e Antónia Augusta, que davam as ciências pedagógicas.
Um dia, o Dr. Breda Simões, que me conhecia já de Coimbra, entendeu
que não havia ligação entre as ciências pedagógicas e as artes.
Como ele já me conhecia e sabia do meu interesse nisso, chamou-me, um
dia, ao gabinete e disse-me que havia necessidade de uma cadeira ou de
uma disciplina que articulasse as duas áreas. Então, propôs-me que
fizesse uma investigação para uma possível cadeira de um curso de
psicopedagogia da educação artística. Eu ouvi mas com uma reserva,
que era: "farei isso, mas terei de fazer primeiro uma
pesquisa". Porque as outras disciplinas já estavam mais ou menos
estruturadas. Havia a História da Educação, havia a Didáctica, havia
a Pedagogia, então eu propus uma pesquisa ou estudo no sentido de uma
psicopedagogia da expressão artística. Ele, como era psicólogo,
percebeu logo onde é que a coisa chegava e deu-me carta branca para
fazer uma investigação, não propriamente na psicopedagogia da
educação artística mas da expressão artística. Também sabia que a
minha formação era exactamente mais nesse sentido. Até porque eu
nunca pensei ser professor. Tirei um curso de médico e tirei as
pedagógicas com a intenção de ser médico escolar, mas nem isso me
era permitido.
A partir dali tive de fazer uma investigação para expor às pessoas
que estavam a tirar o curso, que vinham das músicas e das artes. E foi
aí que eu comecei a fazer uma pesquisa, um curso, com a boa vontade
também das alunas (eram principalmente senhoras). Fomos investigando
todos, formando algum corpo de doutrina para estruturar uma disciplina
nova.
O curso das Ciências Pedagógicas, a determinada altura, acaba mas, a
pedido da Dr.ª. Madalena Perdigão, que estava à frente do serviço de
música e das inovações de iniciação musical para crianças,
continuei a dar este curso de psicopedagogia da expressão artística
às pessoas que estavam a tirar os cursos respectivos de educação
musical. Foi assim que a coisa se desenvolveu. Depois, é uma longa
história.
Esteve na Gulbenkian
alguns anos...
Exactamente, estive lá uns anos. Entrei em 65 e estive até Abril de
74, mesmo antes do 25 de Abril. Quando deixei a Gulbenkian já era
professor no conservatório e aí continuei.
E
no conservatório?
No conservatório passa-se outra história. A certa altura, estava a dar
psicopedagogia da expressão artística às professoras e monitores de
expressões musical e artes plásticas. Continuei a pedido da Dr.ª Madalena Perdigão que, em 1971, na Fundação Gulbenkian, promoveu um
colóquio nacional de ensino artístico. Foi um marco importante no que
diz respeito ao ensino artístico em Portugal, onde colaboraram dezenas
de especialistas de várias áreas das artes e da educação. Acontece
que, depois disso, o governo ficou sensibilizado com este colóquio. Na
altura, era ministro o Prof. Veiga Simão. Este também foi um ponto de
viragem. O Prof. Veiga Simão convida a Drª Madalena Perdigão para
presidir a uma Comissão de reestruturação ou de reforma do
Conservatório Nacional. Ela, por sua vez, rodeou-se de pessoas
especializadas, por exemplo, o Dr. João Freitas Branco, na música;
Luzia Martins, no teatro; Mário Barradas, também no teatro; Seixas
Santos, no cinema, mais um ou outro que agora não me lembro e.
inclusivamente, como secretário, José Sasportes, agora Ministro da
Cultura, e convidou-me a mim para fazer de adjunto da psicopedagogia. Eu
fiz uma exposição, na altura, à Comissão sustentando haver
necessidade de se introduzir uma área de educação, de formação
pedagógica às pessoas que só tiravam os cursos do conservatório e
que não tinham essa dimensão de formação. Concordou-se e fizemos
depois uma sub-comissão para estudar precisamente a possibilidade de um
curso de formação artística para essas pessoas. Como eu estava
interessado e era a área em que eu tinha mais trabalhado e investigado
- a educação pela arte, através de uma psicopedagogia da expressão
artística -, propus dois cursos: um curso para estes professores, que
lhes desse uma dimensão pedagógica, psicopedagógica, estética, e
outro para professores de educação pela arte. Simplesmente, em
Portugal, é sempre tudo muito complexo e houve da parte dos artistas
uma retracção. Abrimos então um outro curso de formação de
professores educadores pela arte. E foi esse que durante 10 anos
decorreu no Conservatório Nacional, formando-se muita gente que,
depois, espalhou por todo o país estas ideias de educação pela arte
que agora estão na baila.
Acha que actualmente
essas ideias se disseminaram...
Sim, pois há pessoas em vários sítios: universidades, institutos
politécnicos, etc. Durante os 10 anos passaram por ali talvez umas 300
e tal pessoas que se espalharam pelo país. Desde o Minho até ao
Algarve há ex-alunos nossos a trabalhar em politécnicos,
universidades, etc.
Em certo sentido, as
escolas também reflectem já hoje uma dinâmica...
Pois, isso tudo teve repercussões, inclusive na reforma do ensino e
até do próprio decreto 349/90, em que a educação artística toma uma
dimensão estruturada. Na maneira como este decreto foi elaborado,
vê-se que muitas das ideias vêm exactamente deste movimento que,
durante esses anos todos, nós alimentámos.
Nesse sentido, é uma
pessoa satisfeita?
Sim, nesse aspecto de realização actual sim. Simplesmente, nem sempre
foi assim, pois acontecem muitas coisas no nosso país. Ao fim dos 10
anos, o Ministro de então, por razões um pouco esquisitas, tentou e
conseguiu acabar com essa experiência.
Fala da Escola
Superior de Educação pela Arte do Conservatório?
Exactamente.
E isso em que época?
Em
1981. A escola fecha em 83, 84. Durou mais dois a três anos
aproximadamente. Naturalmente, a escola era uma coisa nova entre nós.
Inclusivamente, houve pessoas que andavam no estrangeiro a ver se
conseguiam ver alguma escola do mesmo tipo e não havia. Portanto, foi
uma coisa criada aqui por nós, em Portugal, à nossa maneira. O facto
é que, no fim da década de 80, o ministro, com o pretexto de que
aquilo estava deslocado do Conservatório (porque era formação de
professores e o conservatório era de formação de artistas) a escola
é fechada. Como se estava na altura na tentativa de criar as Escolas
Superiores de Educação, o pretexto era de que a escola devia passar
para a Escola Superior de Educação de Lisboa, quando esta fosse
criada. Esta foi criada mas o curso que acabou (sem ter acabado) não
foi nela integrado. E como havia, a certa altura, "más"
interpretações do que fosse a educação pela arte e da maneira como o
curso tinha decorrido durante aqueles anos todos, o Ministro, de acordo
com a Dr.ª Madalena Perdigão, Directora do Gabinete de ensino
artístico, nomeou a Dr.ª Maria Emília Brederode Santos para presidir a
uma comissão para avaliar exactamente esta experiência pedagógica,
que era única no país. Foi a primeira avaliação a nível do ensino
superior que se fez e, depois, foi publicada em livro.
Quem foi o Ministro
que acabou com o curso?
Foi Vítor Crespo.
Mas disse que acabou
sem ter acabado?
É que, mesmo hoje, do ponto de vista oficial, não sei como está. É
que houve simultaneamente essa promessa de ir para a Escola Superior de
Educação.
Mas a sua experiência
foi a de que é possível formar pessoas para elas ensinarem arte.
Foi isso mesmo que defendi desde o princípio. Quando criámos a escola
de professores de educação pela arte, era preciso ter o 12º ano para
se entrar num curso superior. Havia muitas pessoas que estavam
interessadas e que praticavam arte e até já ensinavam as suas artes
mas que não tinham diploma. Inclusivamente, havia professores no
Conservatório só com a 4ª classe. Eu tive um professor de música, um
excelente professor de música, uma pessoa com uma grande cultura, mas
que do ponto de vista académico só tinha a 4ª classe, como hoje
acontece com muitas pessoas de 70 anos. Ora bem, então estávamos num
impasse. Se estávamos à espera que houvesse pessoas que tivessem, de
alguma maneira, qualquer formação artística e ao mesmo tempo
exigência de um 12º ano, seria dramático. Então fazíamos admissão
por entrevista, para ver quem parecia que tivesse aquele mínimo de
condições para poder fazer esse curso. E assim foi, porque havia
muitas pessoas que tinham o 5º ano, outras talvez menos, mas que tinham
alguma formação nas áreas das artes e estas foram admitidas.
Curiosamente, muitos desses até eram dos melhores alunos. Claro que
depois, quase no fim, isso já não era possível porque a escola já se
foi formando e desenvolvendo numa outra dimensão e já havia mais
pessoas com uma formação dupla, quer dizer, tinham algumas aptidões
artísticas mas também tinham academicamente aquilo que era necessário
para entrar num curso superior. Curiosamente, nos último anos,
estiveram muito mais interessados os professores do então ensino
primário, que arranjaram, inclusivamente, bolsas para tirarem aquele
curso. Estes tinham um curso do magistério primário, mas achavam que
havia ali qualquer coisa que eles também gostariam de ter para
facilitar a sua vida, porque a educação pela arte é ou era... é tudo
muito relativo...
Ou seja...
O problema é que as professoras tinham interesse em ministrar uma
educação, logo na instrução primária, onde as artes, as expressões
artísticas, pudessem ser introduzidas para darem uma outra dimensão
que não só o programa. No ensino de então nós decorávamos aquelas
coisas: era a matemática, eram as ciências, etc.. mas havia autores
que já defendiam que era possível fazer o ensino básico, e
particularmente o primeiro ciclo, através das expressões artísticas.
Aprendia-se a matemática, a física, a química, as ciências naturais,
a língua através das expressões artísticas. |