NOESIS nº 55 - Jul/Set 2000 - À CONVERSA COM...

Fotografia de Arquimedes Santos.

Arquimedes Santos
Entrevista de José Carlos Abrantes

Ainda jovem, mas já médico, viveu em Paris, onde frequentou um curso de arte. Longe de saber, nessa altura, que a arte e a educação o iriam atrair e envolver fortemente na vida futura. E, consigo, muitos outros...


Fotografia de Arquimedes Santos.NOESIS: Ainda tem ideia do seu tempo de escola?
ARQUIMEDES SANTOS: Sim. tenho recordações. Mas, se me perguntar se houve assim grandes professores que me tivessem marcado, a questão é mais delicada, sobretudo, tendo cm conta a nossa visão de hoje em relação ao que foi o ensino nessa época.

Nessa época, o ensino era mais tradicional...
Exactamente. Passei por várias escolas. Tive essa felicidade, por um lado, e infelicidade, por outro. Mudei frequentemente de escolas porque o meu pai era funcionário público e, como tal, embora tivesse nascido aqui, saí daqui com 7 anos.

E acabou o curso de Medicina em Coimbra?
Sim. Tirei também as pedagógicas. Exerci clínica. Depois, fui para Lisboa para tirar outra especialidade. Fui então para Paris com a bolsa do governo francês. Estive lá dois anos e regressei em 1964, já com a especialização de psiquiatria infantil que eu queria tirar, e que não existia em Portugal. Depois, a convite de um amigo que estava a iniciar o Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Gulbenkian, o Dr. Breda Simões, fui para esta Fundação. Aí começa outra fase da minha vida.

E isso em que época foi?
Em 1965.

Nessa altura, não estava lá o Dr. Rui Grácio?
Estava, e eu era muito amigo do Dr. Rui Grácio desde os 20 anos.

Mas, disse que a sua vida teve outra...
Porque tive dificuldades várias, não vale a pena estar a falar nisso.

Mas, de que tipo?
Fotografia de Arquimedes Santos.Políticas. Eu, como médico, não podia sequer entrar nos hospitais. Mesmo não ganhando... Fazia clínica aqui, mas, como deve calcular, não era aquilo que eu queria. E entrar para o Centro de Investigação Pedagógica aconteceu a partir da especialização que tinha feito: a neuropedagogia infantil ou a pedopsiquiatria. Houve a possibilidade de ir dar apoio a crianças com dificuldades. Mas, aconteceu que no Centro de Investigação Pedagógica se criou um curso de formação das Ciências da Educação para monitores dos Serviços da Fundação, relacionados com a música e com os museus. Isto é, nos Museus e na Música havia cursos para professores artistas. A dada altura, acharam que devia haver também um complemento pedagógico para esses professores. Então, no Centro, criado há pouco tempo, formou-se um curso de ciências pedagógicas de que era director precisamente o Prof. Delfim Santos, um curso como o que havia na Faculdade de Letras, que eu também tirei. Esse curso da Gulbenkian tinha como subdirectores o Dr. Breda Simões, que era meu amigo também, e o Dr. Rui Grácio.
Havia dois Departamentos. Um de didácticas e outro de psicologia e de psicopedagogia. E foi para esse que fui convidado. Ora, acontece que nesse curso de ciências pedagógicas havia professores, entre os quais o Dr. Delfim Santos, o Dr. Rui Grácio, o Dr. Breda Simões e as Dr.as. Natália Pais e Antónia Augusta, que davam as ciências pedagógicas. Um dia, o Dr. Breda Simões, que me conhecia já de Coimbra, entendeu que não havia ligação entre as ciências pedagógicas e as artes. Como ele já me conhecia e sabia do meu interesse nisso, chamou-me, um dia, ao gabinete e disse-me que havia necessidade de uma cadeira ou de uma disciplina que articulasse as duas áreas. Então, propôs-me que fizesse uma investigação para uma possível cadeira de um curso de psicopedagogia da educação artística. Eu ouvi mas com uma reserva, que era: "farei isso, mas terei de fazer primeiro uma pesquisa". Porque as outras disciplinas já estavam mais ou menos estruturadas. Havia a História da Educação, havia a Didáctica, havia a Pedagogia, então eu propus uma pesquisa ou estudo no sentido de uma psicopedagogia da expressão artística. Ele, como era psicólogo, percebeu logo onde é que a coisa chegava e deu-me carta branca para fazer uma investigação, não propriamente na psicopedagogia da educação artística mas da expressão artística. Também sabia que a minha formação era exactamente mais nesse sentido. Até porque eu nunca pensei ser professor. Tirei um curso de médico e tirei as pedagógicas com a intenção de ser médico escolar, mas nem isso me era permitido.
A partir dali tive de fazer uma investigação para expor às pessoas que estavam a tirar o curso, que vinham das músicas e das artes. E foi aí que eu comecei a fazer uma pesquisa, um curso, com a boa vontade também das alunas (eram principalmente senhoras). Fomos investigando todos, formando algum corpo de doutrina para estruturar uma disciplina nova.
O curso das Ciências Pedagógicas, a determinada altura, acaba mas, a pedido da Dr.ª. Madalena Perdigão, que estava à frente do serviço de música e das inovações de iniciação musical para crianças, continuei a dar este curso de psicopedagogia da expressão artística às pessoas que estavam a tirar os cursos respectivos de educação musical. Foi assim que a coisa se desenvolveu. Depois, é uma longa história.

Esteve na Gulbenkian alguns anos...
Exactamente, estive lá uns anos. Entrei em 65 e estive até Abril de 74, mesmo antes do 25 de Abril. Quando deixei a Gulbenkian já era professor no conservatório e aí continuei.

Fotografia de Arquimedes Santos.E no conservatório?
No conservatório passa-se outra história. A certa altura, estava a dar psicopedagogia da expressão artística às professoras e monitores de expressões musical e artes plásticas. Continuei a pedido da Dr.ª Madalena Perdigão que, em 1971, na Fundação Gulbenkian, promoveu um colóquio nacional de ensino artístico. Foi um marco importante no que diz respeito ao ensino artístico em Portugal, onde colaboraram dezenas de especialistas de várias áreas das artes e da educação. Acontece que, depois disso, o governo ficou sensibilizado com este colóquio. Na altura, era ministro o Prof. Veiga Simão. Este também foi um ponto de viragem. O Prof. Veiga Simão convida a Drª Madalena Perdigão para presidir a uma Comissão de reestruturação ou de reforma do Conservatório Nacional. Ela, por sua vez, rodeou-se de pessoas especializadas, por exemplo, o Dr. João Freitas Branco, na música; Luzia Martins, no teatro; Mário Barradas, também no teatro; Seixas Santos, no cinema, mais um ou outro que agora não me lembro e. inclusivamente, como secretário, José Sasportes, agora Ministro da Cultura, e convidou-me a mim para fazer de adjunto da psicopedagogia. Eu fiz uma exposição, na altura, à Comissão sustentando haver necessidade de se introduzir uma área de educação, de formação pedagógica às pessoas que só tiravam os cursos do conservatório e que não tinham essa dimensão de formação. Concordou-se e fizemos depois uma sub-comissão para estudar precisamente a possibilidade de um curso de formação artística para essas pessoas. Como eu estava interessado e era a área em que eu tinha mais trabalhado e investigado - a educação pela arte, através de uma psicopedagogia da expressão artística -, propus dois cursos: um curso para estes professores, que lhes desse uma dimensão pedagógica, psicopedagógica, estética, e outro para professores de educação pela arte. Simplesmente, em Portugal, é sempre tudo muito complexo e houve da parte dos artistas uma retracção. Abrimos então um outro curso de formação de professores educadores pela arte. E foi esse que durante 10 anos decorreu no Conservatório Nacional, formando-se muita gente que, depois, espalhou por todo o país estas ideias de educação pela arte que agora estão na baila.

Acha que actualmente essas ideias se disseminaram...
Sim, pois há pessoas em vários sítios: universidades, institutos politécnicos, etc. Durante os 10 anos passaram por ali talvez umas 300 e tal pessoas que se espalharam pelo país. Desde o Minho até ao Algarve há ex-alunos nossos a trabalhar em politécnicos, universidades, etc.

Em certo sentido, as escolas também reflectem já hoje uma dinâmica...
Pois, isso tudo teve repercussões, inclusive na reforma do ensino e até do próprio decreto 349/90, em que a educação artística toma uma dimensão estruturada. Na maneira como este decreto foi elaborado, vê-se que muitas das ideias vêm exactamente deste movimento que, durante esses anos todos, nós alimentámos.

Nesse sentido, é uma pessoa satisfeita?
Sim, nesse aspecto de realização actual sim. Simplesmente, nem sempre foi assim, pois acontecem muitas coisas no nosso país. Ao fim dos 10 anos, o Ministro de então, por razões um pouco esquisitas, tentou e conseguiu acabar com essa experiência.

Fala da Escola Superior de Educação pela Arte do Conservatório?
Exactamente.

E isso em que época?
Fotografia de Arquimedes Santos.Em 1981. A escola fecha em 83, 84. Durou mais dois a três anos aproximadamente. Naturalmente, a escola era uma coisa nova entre nós. Inclusivamente, houve pessoas que andavam no estrangeiro a ver se conseguiam ver alguma escola do mesmo tipo e não havia. Portanto, foi uma coisa criada aqui por nós, em Portugal, à nossa maneira. O facto é que, no fim da década de 80, o ministro, com o pretexto de que aquilo estava deslocado do Conservatório (porque era formação de professores e o conservatório era de formação de artistas) a escola é fechada. Como se estava na altura na tentativa de criar as Escolas Superiores de Educação, o pretexto era de que a escola devia passar para a Escola Superior de Educação de Lisboa, quando esta fosse criada. Esta foi criada mas o curso que acabou (sem ter acabado) não foi nela integrado. E como havia, a certa altura, "más" interpretações do que fosse a educação pela arte e da maneira como o curso tinha decorrido durante aqueles anos todos, o Ministro, de acordo com a Dr.ª Madalena Perdigão, Directora do Gabinete de ensino artístico, nomeou a Dr.ª Maria Emília Brederode Santos para presidir a uma comissão para avaliar exactamente esta experiência pedagógica, que era única no país. Foi a primeira avaliação a nível do ensino superior que se fez e, depois, foi publicada em livro.

Quem foi o Ministro que acabou com o curso?
Foi Vítor Crespo.

Mas disse que acabou sem ter acabado?
É que, mesmo hoje, do ponto de vista oficial, não sei como está. É que houve simultaneamente essa promessa de ir para a Escola Superior de Educação.

Mas a sua experiência foi a de que é possível formar pessoas para elas ensinarem arte.
Foi isso mesmo que defendi desde o princípio. Quando criámos a escola de professores de educação pela arte, era preciso ter o 12º ano para se entrar num curso superior. Havia muitas pessoas que estavam interessadas e que praticavam arte e até já ensinavam as suas artes mas que não tinham diploma. Inclusivamente, havia professores no Conservatório só com a 4ª classe. Eu tive um professor de música, um excelente professor de música, uma pessoa com uma grande cultura, mas que do ponto de vista académico só tinha a 4ª classe, como hoje acontece com muitas pessoas de 70 anos. Ora bem, então estávamos num impasse. Se estávamos à espera que houvesse pessoas que tivessem, de alguma maneira, qualquer formação artística e ao mesmo tempo exigência de um 12º ano, seria dramático. Então fazíamos admissão por entrevista, para ver quem parecia que tivesse aquele mínimo de condições para poder fazer esse curso. E assim foi, porque havia muitas pessoas que tinham o 5º ano, outras talvez menos, mas que tinham alguma formação nas áreas das artes e estas foram admitidas. Curiosamente, muitos desses até eram dos melhores alunos. Claro que depois, quase no fim, isso já não era possível porque a escola já se foi formando e desenvolvendo numa outra dimensão e já havia mais pessoas com uma formação dupla, quer dizer, tinham algumas aptidões artísticas mas também tinham academicamente aquilo que era necessário para entrar num curso superior. Curiosamente, nos último anos, estiveram muito mais interessados os professores do então ensino primário, que arranjaram, inclusivamente, bolsas para tirarem aquele curso. Estes tinham um curso do magistério primário, mas achavam que havia ali qualquer coisa que eles também gostariam de ter para facilitar a sua vida, porque a educação pela arte é ou era... é tudo muito relativo...

Ou seja...
O problema é que as professoras tinham interesse em ministrar uma educação, logo na instrução primária, onde as artes, as expressões artísticas, pudessem ser introduzidas para darem uma outra dimensão que não só o programa. No ensino de então nós decorávamos aquelas coisas: era a matemática, eram as ciências, etc.. mas havia autores que já defendiam que era possível fazer o ensino básico, e particularmente o primeiro ciclo, através das expressões artísticas. Aprendia-se a matemática, a física, a química, as ciências naturais, a língua através das expressões artísticas.


Essa era uma visão mais extrema.

Claro. Eu podia defender nas aulas teoricamente mas dava-lhes possibilidade de escolher, de optar...

Diz que hoje não é bem isso. Há hoje correntes a defenderem coisas diferentes?
Eu já tenho quase 80 anos. Todos nós temos os nossos períodos e é preciso termos a modéstia de reconhecer que somos fruto de muita coisa e ... do tempo. Muitas vezes, vamos à frente, é certo, mas mesmo esse ir à frente é limitado e muito relativo. Hoje, o mundo está de tal maneira em modificação que eu não sei se alguém sabe se vai à frente ou onde está. Existe um corte epistemológico. De qualquer modo, durante aquele período, eu achava que sim. Este movimento surge a partir de um autor inglês, Herbert Read, e também a nível internacional, da ONU, que cria, através da UNESCO, uma Associação internacional de Educação pela Arte. Esse movimento alastrou por toda a parte e continua até hoje. Mas, como em tudo, há pessoas que começam a contestar. Claro que as coisas modificaram-se. Há outros costumes há outras possibilidades. Mas houve inclusivamente uma altura em que a Drª Madalena Perdigão estava como presidente do Gabinete de Ensino Artístico, já depois do 25 de Abril, por volta de 1978, em que se constitui (também no âmbito do Ministério) uma comissão, com artistas e professores, para se fazer o projecto do Plano Nacional de Educação de Ensino Artístico. Aí notei reservas. Fiz, de certo modo, uma diligência de lutar pela dama que me interessava, que era a educação pela arte, apoiado, evidentemente, pela Drª Madalena Perdigão. Acontece que, mesmo aí, tive algumas dificuldades para que os professores e muitos artistas entendessem a necessidade da educação pela arte. Mas lá se conseguiu e, se verificar, no relatório que saiu do Plano Nacional de Educação Artística lá vem, entre as três propostas fundamentais, uma de se criarem os Institutos Universitários das Artes, que até hoje não se criaram. Tudo está disperso, o que complica a nossa vida, porque estamos nos institutos politécnicos com perspectivas idênticas de quem está a tirar as engenharias, ou as comunicações ou as agrárias. Outra proposta era a da regionalização no ensino artístico e uma outra (que foi a grande conquista) a de introduzir a educação pela arte, mas aí houve uma reticência em ir além do ensino básico. Isto é, aceitou-se a educação pela arte para a pré-primária e para a primária e, fundamentalmente, para crianças com dificuldades. Estamos a tocar num ponto que, naturalmente, me tinha levado a essas áreas porque eu tinha a formação de pedopsiquiatria e vi exactamente que a melhor maneira, do ponto de vista educativo, de agir na vida das crianças com dificuldades era através das expressões artísticas, quer seja da música, das artes plásticas, da psicomotricidade, da dança, do drama, etc. Mas, uma vez ou outra, o próprio ministério vinha pôr em dúvida a actualidade da educação pela arte. Ou seja, dizia: Sim, senhor, muito bem, mas está desactualizado. Está a ver as pedras que nos lançaram no caminho...

Mas acha que hoje há ideias novas neste domínio? Por exemplo?
Sim, há. Por exemplo, algumas alunas nossas, a leccionar na Universidade do Minho, estão a trabalhar, inclusivamente, nas expressões artísticas integradas. Há aqui já um conceito um pouco diferente. Eu defendi uma noção de globalização das expressões artísticas, fundamentalmente na pré-primária e também na primária. Mas veja que já se está a dar aqui um outro aspecto: as "expressões artísticas integradas"...

Qual é a diferença entre globalização e expressões artísticas integradas?
Integram-se já em função das próprias disciplinas.

As querelas entre os artistas e os pedagogos também atravessam muito este domínio...
Sem dúvida. Porque a minha maneira de ver é que a formação tem de ser a do artista. Mesmo que não seja para uma educação dos educandos para serem amanhã artistas, aquela formação mínima que os educandos têm de fazer das artes tem de ser a de uma pessoa que tenha minimamente o nível de conhecimento e de vivência das artes.

UM AFECTO EM JEITO DE HOMENAGEM

Não fomos seus alunos. Nem seus "doentes". Não temos idade para as cumplicidades clandestinas que fortificaram algumas das suas amizades. Aliás, nem sequer éramos amigos. Ainda não éramos...
Mas conhecíamos a sua obra - ou melhor, parte da sua obra, sobretudo a sua produção escrita publicada - e detínhamos ecos, bastante evidentes, de um percurso pioneiro, em Portugal, na defesa de uma Educação pela Arte, fundamentada numa psicopedagogia das expressões artísticas. Unia-nos, em particular, o prazer do Teatro. Esta foi a principal razão por que decidimos homenagear o (ainda por cima...) conterrâneo, no âmbito da 1ª edição do Caminhos - Festival de Teatro do Concelho de Vila Franca de Xira, que decorreu em Alhandra, entre 2 e 11 de Junho deste ano. Ele experimentara quase todas as funções: fora actor e presidente da direcção do TEUC - Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra; traduzira, pela primeira vez, para português o censurado Lorca; encenara textos de Erico Veríssimo; palmilhara vilas e aldeias, com o Grupo Cénico do Ateneu de Coimbra, concretizando o seu sonho de um "teatro para o povo"...
Orgulha-se da amizade de muitos homens desta arte, de que costuma destacar os amigos Bernardo Santareno e Luís Francisco Rebello. E constitui uma referência para alguns dos nomes que, actualmente, no nosso pais, estão na linha da frente, no que respeita à experimentação de formas de aproximação entre Arte e Educação (João Mota, por exemplo, considera-o um "Mestre").
Durante vários meses, uma equipa de membros e colaboradores do Grupo de Teatro Esteiros empenhou-se na investigação, que veio a constituir o suporte da Homenagem. Como já noutra ocasião escrevemos, durante aqueles meses de pesquisa, "vivemos os últimos setenta e nove anos da nossa História, cruzando estórias contadas na primeira pessoa, com acontecimentos do país, investigações publicadas, ficções e poesias, testemunhos de amigos, poeirentos autos e sentenças prisionais ainda por estudar. Como se trepássemos a uma árvore, fomos descobrindo outros ramos, por vezes, as sólidas raízes, pessoas, em todos os casos, fascinantes, com histórias de afectos, de concretizações , de cultura e de liberdade" a cruzarem com a dele. Com a de Arquimedes da Silva Santos.
Foram algumas destas pessoas que corresponderam ao convite para integrarem a Comissão de Honra de Homenagem, a que o Presidente da República aceitou presidir (facto que não teve a merecida divulgação, por via dos tempos dos protocolos). E foram muitas destas pessoas que estiveram presentes (ou, noutros casos, entupiram com mensagens os faxes e o correio electrónico da produção do Festival).
Na noite de 5 de Junho, fizemos a festa. Inaugurámos oficialmente a exposição retrospectiva da vida e obra, preparada com a colaboração do Museu do Neo-realismo. Lançámos o livro Arquimedes da Silva Santos - caminhos de uma vida, com o apoio à edição da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo. E apresentámos um espectáculo, dir-se-ia intimista e afectivo, onde os excertos de várias entrevistas registadas em vídeo, feitas ao homenageado no decurso da pesquisa, se misturaram com os testemunhos "ao vivo" de Luís Francisco Rebello, Natália Pais e Domingos Morais e com a sua poesia, dita por João Mota e actores do Grupo de Teatro Esteiros, musicada por Quim Nascimento e cantada pelo Coro Lopes Graça.
Arquimedes da Silva Santos, como sempre, invadiu-nos de serenidade e sabedoria. É justo que continuemos a demonstrar-lhe o nosso reconhecimento e o nosso afecto. Também em jeito de homenagem.

Miguel Falcão.
Professor / Grupo de Teatro Esteiros


Fotografia de Arquimedes Santos e José Carlos Abrantes.A pessoa que ensinar tem de ter uma formação artística?

Exactamente. Dou o primado precisamente a uma formação de nível artístico, consciente, a uma formação artística. Não direi que seja urna formação artística avançada, mas tem de a ter e ser acrescentada com uma formação pedagógica, psicopedagógica, didáctica, e, sobretudo, psicológica. Se alguma influência poderei ter tido, foi precisamente aí, no chamar a atenção de que hoje, a nível de todo o ensino, desde o pré-primário até ao universitário, um professor que não tenha uma formação psicológica dificilmente consegue desempenhar bem o seu trabalho.

Há quem defenda que os próprios artistas, mesmo não tendo formação pedagógica, por vezes, conseguem resultados muito rápidos...
Pode haver um ou outro artista mais dotado mas não pode ser um regime para a totalidade.
Evidentemente, sou liberal o suficiente para dizer que pode haver pessoas que não tenham uma formação pedagógica, ou didáctica ou académica e tenham o dom que permite isso. E o contrário se passa às vezes. Há professores que têm essa formação artística mas que não são capazes de dar formação. Mas tudo pode acontecer, e aconteceu inclusivamente quando admitimos os primeiros alunos que não tinham a formação pedagógica mas que tinham alguma vivência artística.

Portanto, viveu essas duas situações de um modo próximo. Primeiro, foram mais os que tinham mais formação artística e, depois, os que já eram professores do ensino primário e, portanto, tinham formação menos artística.
Exactamente. E estes últimos foram muito bons, pois a nível do ministério isto teve as suas consequências. Eles conseguiram criar grupos de intervenção artística.

Que ainda hoje existem.
Exactamente. Porque esses professores tiraram depois partido da sua formação. Eram professores do ensino primário mas adquiriram esta formação que funcionava ao nível do bacharelato. Portanto, começaram a propor junto do Ministério a criação de "grupos de intervenção artística".
E o que era isto? Era exactamente umas quantas pessoas que tinham tirado estes cursos que, junto das escolas primárias, colaborando com os professores que não tinham essa dimensão, quiseram introduzir a expressão musical, a expressão dramática, etc.

Fotografia de Arquimedes Santos.Hoje, há um certo consenso em relação à importância da educação artística. Mas, porque é que é importante para as crianças em geral?
Já deve adivinhar qual vai ser a minha resposta. O desenvolvimento harmonioso de uma criança é o que importa na educação para que ela, amanhã, se encontre a si própria e se encontre com os seus concidadãos. A educação, ao fim e ao cabo, é para aí que aponta. Ora bem, no desenvolvimento de uma criança temos de atender a vários níveis, desde a saúde física, o somático, mas também temos de considerar, ainda neste campo, o desenvolvimento psicomotor. Há, depois, o desenvolvimento da sua sensibilidade, da sua afectividade, da sua emotividade, da sua solidariedade, da sua sociabilidade. São exactamente aspectos, níveis e esferas que, na escola, não podem faltar. Grande parte desta formação podemos ligá-la à arte, à sensibilidade, porque evidentemente abre ao mundo que é talvez o mais importante mundo da humanidade: o criado pela arte. Porque as ciências e a tecnologia continuam e fazem avançar o mundo, mas o mais essencial do espírito humano é a sua criação na arte. Não é por acaso que, desde sempre, o que fica das civilizações são essas manifestações artísticas. A sensibilidade da afectividade é, do meu ponto de vista, fundamental na criança (contrariamente ao que hoje se diz, aparecendo crianças a fazerem cursos universitários na América). O que importa é o desenvolvimento da totalidade da criança, onde é mais importante isso do que estar a impingir coisas da ordem intelectual. Não quer dizer que isso não tenha importância mas, desde sempre, era aí que as crianças eram, de certo modo, massacradas. Do meu ponto de vista, esta é a base fundamental para a educação da criança. Depois, e até através desta educação pela arte, podemos ministrar conhecimentos, mas não no sentido do armazenar conhecimentos, do decorar. Claro que há depois linguagens. Estamos exactamente no campo das expressões e estas são a linguagem musical, a linguagem dramática, a cinética, etc.

Mas isso já faz parte do aprender a fazer.
Exactamente. A arte é evidentemente também isso. Por isso, está a ver que a minha posição é essa. Pode ser uma posição pedopsiquiátrica mas foi ai que me formei também.

"EDUCAÇÃO PELA ARTE":
UM COLÓQUIO E UMA HOMENAGEM A ARQUIMEDES SANTOS

O Colóquio "Educação pela Arte", que terá lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, nos dias 9 e 10 de Novembro, assumirá também uma homenagem a Arquimedes da Silva Santos.
Enquadrada no colóquio que visa reflectir e traçar uma panorâmica da educação artística em geral e do Movimento de Educação pela Arte no passado, no presente e no futuro, esta homenagem vem, sobretudo, valorizar o carácter daquele que foi um dos pioneiros deste movimento, com cerca de 40 anos.
Arquimedes da Silva Santos será venerado pelo seu contributo na criação da Escola Superior de Educação pela Arte, no contexto da Experiência Pedagógica do Conservatório Nacional de 1971 e, mais tarde, na criação do Ramo de Educação da Escola Superior de Dança, bem como no lançamento da disciplina de Psicopedagogia da Educação Artística.
O colóquio abarcará assim membros de diferentes associações que se ocupam das temáticas da arte e da educação, nomeadamente, a Associação Portuguesa de Educação Pela Arte, a Associação Portuguesa de Educação Musical, a Associação Portuguesa de Expressão Dramática, a Associação de Professores de Expressão e Comunicação Visual, o Movimento Português de Intervenção Artística e Educação pela Arte, a Sociedade Portuguesa de Arteterapia, a Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação e a Associação de Musicoterapia.
Este colóquio e a referida homenagem são da responsabilidade de uma Comissão que tem como coordenadora Graziela Cintra e conta com os apoios da Fundação Calouste Gulbenkian, do Instituto de Inovação Educacional e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.


Sabe que temos um novo ministro. Acha que há escolhos que deviam ser retirados ou coisas que podiam ser facilitadas para os professores?

Está a colocar uma questão muito delicada porque, nesse aspecto, eu tenho sempre as minhas reservas. Recordemos o Eng. Roberto Carneiro. Por vezes, tenho pena que não tivesse sido ele o ministro na altura em que a escola estava a funcionar, porque estou convencido que ele não faria o que fez Vítor Crespo. Não é por acaso que ele tem uma filha que é a primeira maestrina do país, não é por acaso que os filhos dele fazem música. Isso, muitas vezes, tem muita importância e se esse ministro lá estivesse naquela altura quase que tenho a certeza que ele, com respeito à Escola Superior de Educação pela Arte, lhe dava seguimento, ou lhe dava uma volta e ela não acabava. Com o actual ministro, eu sei que ele é aberto a esta área.

Fez um relatório sobre este assunto.
Sim. Aliás, ainda li, há pouco tempo, uma entrevista dele onde realçava quatro vias na educação, uma delas era a tecnológica e a outra a artística. Isto mostra que está sensibilizado.

Mas, do seu ponto de vista, não acha que haveria coisas que poderiam ser feitas?
Sim, muita coisa.

Pode mencionar uma ou duas?
Por exemplo, aquilo que foi proposto no primeiro Congresso de educação básica, da Universidade do Minho, que se resumia a que fosse introduzida, nas Escolas Superiores de Educação, uma área de educação pela arte ou mesmo uma disciplina de psicopedagogia da expressão artística que, de algum modo, ao nível teórico, fundamentasse as expressões que já estão nessas escolas. Havia aí necessidade de uma disciplina que articulasse o que os professores estão a dar nas expressões mas que só tem uma ligação factual. Portanto, uma visão de conjunto. Depois, uma outra coisa, que já estava no Plano Nacional de Educação Artística que era fazer com que as escolas artísticas (que são poucas, aliás) que estão nos institutos politécnicos saíssem e fosse criado um Instituto Universitário Artístico ou das Artes. Além disso (e agora não é só neste campo), as próprias escolas superiores de educação, que estão integradas nos institutos politécnicos, deveriam ficar ligadas ou a institutos também de educação ou integradas nas faculdades de psicologia e de ciências da educação. Porque, na verdade, há aqui qualquer coisa que não joga, de ordem burocrática, económica, etc.


Aconselharia os professores que gostariam de trabalhar neste domínio a ler alguma coisa ou a fazer alguma coisa em especial?
Creio que há vários livros, mas o principal, para já, é o de "Educação pela arte", de Herbert Read. É um livro base, denso, não é fácil para qualquer pessoa, sobretudo na parte das psicologias que ele introduz. Ele reviu-se particularmente numa perspectiva psicanalística junguiana. Portanto, adoptou uma visão da psicologia na linha do Jung que é, de algum modo, mais aproximada para uma visão artística e estética. Depois, há outros livros. Há um livro muito importante de uma senhora polaca que eu trouxe de França (não está traduzido em Portugal). É da autora Irene Wojnar e chama-se precisamente "Pedagogia e estética". Creio que estes dois livros já seriam uma boa ajuda.
Claro que, curiosamente, esta nossa experiência (já lã vão 35 anos) na América, na Inglaterra e na França começou a desenvolver-se antes. Em Portugal, na altura, nós éramos pioneiros e entrou na reestruturação do Conservatório, mas hoje o aprofundamento das expressões e da educação artística, em cada área, tem já tantos estudos e tanta coisa que eu já nem penso saber disso há muitos anos. Isto para dizer que as coisas hoje estão tão avançadas que é preciso que venha alguém que seja capaz, agora, de dar uma visão mais utilizada destes aspectos.

Fotografia de Arquimedes Santos.Hoje, há muito material que antigamente não havia, por exemplo, cd-roms, museus.
Exactamente. Felizmente ou infelizmente, tudo isso estava então a balbuciar. Isto hoje vem dar à educação pela arte outras dimensões. Tudo isto tem de ser configurado. Por exemplo, quando eu vejo o computador ao nível da expressão plástica. Há 20 ou 30 anos ninguém pensaria que o que se faz hoje no computador, do ponto de vista plástico, pudesse ser uma coisa maravilhosa. Mas, tudo isto tem de ser estudado, não só na parte técnica mas inclusivamente sob o ponto de vista da influência na mentalidade da criança, porque ela está a ver o mundo de um modo diferente do que eu vi. Ao fim e ao cabo, se há alguma coisa que eu trouxe nesta consciencialização era baseado na inter-relação entre a psicologia da criança, a pedagogia e a expressão artística. Era neste triângulo que eu pretendia que se devia fazer uma reflexão para um professor que fosse para a área da educação artística e não só. De há alguns anos para cá, está a haver um corte na civilização, desde a idade industrial. Não há dúvida que, nos países que se dizem mais avançados, entramos numa nova civilização da informação, da comunicação, das tecnologias de ponta e isto tem de ser estudado em função da nossa mente, da nossa psicologia.

Mesmo em Portugal, há aspectos novos...
Há um aspecto muito novo, sobretudo depois do 25 de Abril, que é o da dimensão feminina. No meu tempo, poucas eram as raparigas que iam à universidade. Em medicina só havia uma. Hoje, há mais médicas do que médicos. Isto para mostrar que, na verdade, as raparigas têm conquistado um lugar extraordinário. Há estudos, acho que na Inglaterra, que apontam nesse sentido. Elas estão a dar mais rendimento do ponto de vista escolar, e não só, do que os próprios rapazes. Aqui também se está a passar isso, que merece também um estudo. Há rapazes com possibilidades, mas, naturalmente, têm outras soluções, outras facilidades e não se interessam tanto como elas.

Foi médico, mas sobretudo professor...
Fui um professor amador que, de algum modo, se profissionalizou. Se eu fosse professor como muitos que têm de ser porque lhes exigem eu não o seria. Eu tive alguém que me compreendeu e tive a possibilidade de voar e de fazer o que quis e talvez por isso a escola acabou. Como livre pensador ou como franco atirador pude fazer aquilo que eu achava que devia ser. Ia para as aulas e apresentava-as como eu queria, fazia os cursos como eu queria, porque nada estava estabelecido. Mas dava liberdade aos alunos para podermos fazer as coisas de maneira a enriquecermo-nos, a encontrarmo-nos, a sermos. A minha linha de acção era essa. Não era o saber, o ter, era exactamente o ser. Mas, se me dissessem tens de fazer assim, eu perguntava "Como?".

 

Quem é Arquimedes Santos

Nasceu em 1921, na Póvoa de Santa Iria.
É licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, local onde também fez um curso de Ciências Pedagógicas. Mais tarde, especializou-se em Neuropsiquiatria Infantil, em Paris.
Fotografia de Arquimedes Santos.Durante esta estada na capital francesa, frequentou também cursos de Estudos Teatrais e de Educação Artística, desenvolvendo, desde modo, uma vertente que já tinha iniciado em Coimbra, no Teatro Universitário.
Já em Portugal, foi investigador no Centro de Investigação Pedagógica do Instituto Gulbenkian de Ciência e professor dos cursos de Formação Pedagógica, promovidos pela Fundação para professores de Música e monitores dos serviços de educação dos Museus, bem como dos cursos promovidos pelo Centro Artístico Infantil, no ACARTE - Fundação Calouste Gulbenkian.
Foi ainda Consultor da Comissão de Reforma do Conservatório Nacional, responsável pela Escola-Piloto de Formação de Educadores pela Arte (1971-74) e professor da Escola Superior de Educação pela Arte do Conservatório Nacional (1974-83). Entre 1978 e 79, foi membro do grupo de trabalho que elaborou o Plano Nacional de Educação Artística e, de 1986 a 1991, foi professor-coordenador da Escola Superior de Dança. Entre 1986 e 99, assumiu a Presidência do Conselho Artístico desta escola.
Em 1999, faz parte da Comissão de Avaliação Externa para as Escolas Superiores Artísticas do Ensino Superior Politécnico.
Para além destas múltiplas actividades, foi o fundador do Consultório médico-psicopedagógico, editou livros em poesia e assumiu diversas comunicações, conferências, artigos e ensaios tendo como temas a Psicopedagogia e a Educação pela Arte.
Foi e é membro dos corpos directivos de várias associações científicas e profissionais. Actualmente, também é Presidente da Assembleia Geral do Movimento Português de Intervenção Artística e Educação pela Arte.
Em 1998, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.



DGIDC NOESIS Nº 55
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